Junta de Freguesia de Vila de Febres

Museu Casa Carlos de Oliveira

Uma Figura das Letras e da Gândara



Carlos de Oliveira, memória de gandarês universal


Neto Mendes









  1. INTRODUÇÃO




Falar de Carlos de Oliveira é simultaneamente uma honra e um risco.
É uma honra porque escrever umas tantas linhas sobre este vulto
considerado das Letras Nacionais cria-nos a ilusão (infelizmente não
mais do que isso…) de convivermos com esta figura que se adivinha
prenhe de sensibilidade e ardor humano e que não tivemos a
felicidade de conhecer pessoalmente. Há, apesar de tudo e desta
lacuna ainda agora confessada, uma farta dose de cumplicidades
afectivas que sente todo o leitor que se revê naquilo que lê. O que
de maneira nenhuma anula, antes o agrava, o risco de falar de alguém
que sente como se fôssemos nós… É esta trave3ssia do arame sobre
uma rede tecida de frágeis fios que teimamos em realizar para que se
cumpra a nossa preocupação maior: completar o círculo da obra de
Carlos de Oliveira que se iniciou na Gândara, que depois se abriu a
outras paragens (geográficas, que não afectivas, a sua “pátria
dos sentidos” continuou a chamar-se Gândara, mesmo quando os seus
horizontes eram – que o foram sempre – os mais largos, capazes de
abarcar o mundo todo) e que finalmente queremos que se encerre
definitivamente, que se feche o círculo. Como? Que o povo com quem
ele sofreu muitas vezes uma dor surda (a dor do poeta é a mais funda
e silenciosa – tantas vezes, silenciada!) acorde da sua endémica
letargia e possa dizer com o poeta: “recebo o poema que chegou de
longe, duma memória escura, voluntária, atravessando lama, sono,
olvido.” (Sobre o Lado Esquerdo, p. 16).



Não é, como se depreende, menção deste caderno fazer um estudo
de análise literária sobre a obra de Carlos de Oliveira. Nem tal
faria sentido dado o público generalizado a que se destina,
afastando algum das querelas literárias e quantas vezes ignorando
até regulares hábitos de leitura. Ficamo-nos pela intenção, e já
nos daríamos por felizes se conseguida, de mostrar o “gandarês
universal” que foi através dos seus poemas, dos romances, das
crónicas, dos escritos que contínua e exaustivamente aperfeiçoava
como o agricultor que com sábios cuidados poda a cepa do vinho
sagrado. Ou, na expressão que preferia: “trabalho vagaroso,
feito, desfeito, refeito, rarefeito
”. Como ele mesmo gostava de
dizer, “escrever é lavrar”. E lavrar o chão de grãos de
areia destas dunas da Gândara pode não ser tarefa pequena mas não
faz esmorecer “os camponeses tão chegados à terra” que
com ela se confundem e que, por fim, em terra mesma se transformam.




  1. AS ORIGENS




Carlos Alberto Serras de Oliveira nasceu no Brasil, em belém do
Pará, corria o ano de 1921. Aí se encontravam seus pais,
portugueses cumprindo o fado (curto) da emigração. Longe da
tranquilidade que só uma adaptação conseguida transporta,
regressam a Portugal em 1923, fixando-se primeiro na Camarneira, onde
vivia um seu avô, e quatro anos mais tarde em Febres para onde o
pai, o saudoso Dr. Américo de Oliveira, virá exercer medicina
depois de ter sido designado médico municipal. Aqui, Carlos
frequenta a Escola Primária, onde foi discípulo da Professora Maria
dos Prazeres Barbosa Baptista, ainda viva e quase centenária.



É pois aqui, em plena Gândara, que o “Carlitos”, como era
conhecido, passará a infância e a juventude, mantendo sempre ao
longo da sua vida e na sua obra uma forte ligação a esta região.



“Meu pai era médico de aldeia, uma aldeia pobríssima: Nossa
Senhora das Febres. Lagoas pantanosas, desolação, calcário, areia.
Cresci cercado pela grande pobreza dos camponeses, por uma
mortalidade infantil enorme, uma emigração espantosa. Natural
portanto que tudo isso me tenha tocado (melhor, tatuado). O lado
social e o outro, porque há outro também, das minhas narrativas ou
poemas publicados (…) nasceu desse ambiente quase lunar habitado
por homens (…)” (O Aprendiz de Feiticeiro, p. 204).



“Trago a janela de muito longe, da casa de meu avô” (idem,
p.173).



Durante dois anos (1931-33) frequenta o ensino secundário em
Cantanhede, vila que inspirará a “Corgos” dos seus romances.



Vai depois para Coimbra (1933), onde frequenta o Liceu D. João III,
cidade onde permanecerá até 1948. Aí estuda e acabará por
formar-se em Histórico-Filosóficas. Convive com grandes figuras da
Cultura Portuguesa, consagrados já uns, outros, como ele, sedentos
de conhecer: Afonso Duarte, João José Cochofel, Joaquim Namorado,
Fernando Namora são alguns íntimos seus.



Durante este “período coimbrão” da sua vida publica o seu
primeiro livro de poemas, Turismo (1942), com
ilustrações de Fernando Namora. Publica depois o seu primeiro
romance, Casa na Duna (1943), logo seguido de Alcateia
(1944), livro que virá a ser apreendido pela PIDE, a polícia
política de Salazar.



Visita Febres nas férias, sempre que pode, fazendo-se acompanhar,
por vezes, de Fernando Namora com quem jogava a malha no Largo em
Convívio com populares.



Em 1948 muda-se para Lisboa, continuando apesar disso a deslocar-se a
Coimbra com frequência. Um ano mais tarde casa com Ângela, uma
jovem madeirense que conhecera em Coimbra enquanto estudante e que
será a sua companheira de todas as horas. A ela dedica o escritor
alguns dos seus livros (o romance Finisterra), poemas
(como “Carta a Ângela” e “Ilha de Terra de Harmonia)
e ainda alguns excertos, como é o caso do seguinte em que surge
referida anagramaticamente como Gelnaa:



“Ainda jovem quando a conheci. Os olhos mais claros



do que hoje (a vida escureceu-lhos bastante), o cabelo solto



num halo de bruma e brisa, que faz pensar nos amanheceres



da sua ilha (…)” (O Aprendiz de Feiticeiro)


    1. O PAI





Seu pai, o Dr. Américo de Oliveira, foi durante anos o médico
municipal sediado em Febres, tendo medicado em toda esta região.
Ainda hoje os mais velhos recordam a sua figura de “João Semana”,
deslocando-se para visitar os doentes montando no seu cavalo.
Republicano convicto, participou na I Guerra Mundial (1914-18) onde
foi gazeado na Flandres, não mais recuperando completamente a sua
saúde precária. A este respeito, escreveu Carlos de Oliveira um dos
mais dolorosamente bonitos poemas da Literatura Portuguesa, “Look
back in Anger”, e que ilustra ao mesmo tempo esse “repúdio
militante da violência” de que fala o seu amigo Álvaro Salema
(Vértice, nº450/1, p.569):



“Podia ser a névoa habitual da noite, os charcos cintilantes, o
luar trazido por um golpe de vento às trincheiras da Flandres, mas
não era. Quando acordou mais tarde num hospital da rectaguarda,
ensinaram-no a respirar de novo. Lentas infiltrações de oxigénio
num gratino poroso, durante anos e anos, até à imunidade pulmonar
das estátuas.



Hoje, um dos seus filhos sobe ao terraço mais obscuro da cidade em
que vive e olha o passado com rancor. O sangue bate, gota a gota, na
pedra hereditária dos brônquios e ele sabe que é o mar contra os
rochedos, a pulsação difícil das algas ou dos soldados mortos
nessa noite da Flandres.



As imagens latentes, penso eu, porque sou eu o homem na armadilha do
terraço difuso, entrego-as às palavras como se entrega um filme aos
sais de prata. Quer dizer: numa pura suspensão de cristais, revelo a
minha vida.” (Sobre o Lado Esquerdo).



  1. A MEMÓRIA
    DA INFÂNCIA




Antes de mais convém chamar a atenção do amigo leitor para uma
verdade para a qual deve estar alertado todo aquele que se apresta
para ler Literatura: esta não é a cópia fotográfica da realidade!
Não esperamos nunca, pois encontrá-la reproduzida nas páginas dos
romances de Carlos de Oliveira. Encontramos, isso sim, a “recriação
literária” de uma determinada ambiência como se de uma
transformação química se tratasse, obedecendo naturalmente às
regras do processo de criação literária.



Mas o autor não nega, antes o confessa, ter a realidade como ponto
de partida e fá-lo ao longo da sua vida literária com especial
oportunidade, em imagens de rara beleza, como acontece nos trechos
seguintes:



“Cresci (em Febres) cercado pela grande pobreza dos camponeses, por
uma mortalidade infantil enorme, uma emigração espantosa. Natural
portanto que tudo isso me tenha tocado (melhor, tatuado).” (O
Aprendiz de Feiticeiro
, p.204).



“Perguntam-me porque falo tanto da infância. Porque havia de ser?
A secura, a aridez desta linguagem, fabrico-a e fabrica-se em parte
de materiais vindos de longe: saibro, cal, árvores, musgo. E gente,
numa grande solidão de areia. A paisagem da infância que não é
nenhum paraíso perdido mas a pobreza, a nudez, a carência de quase
tudo.” (O Aprendiz de Feiticeiro, p.207).



Ao referir-se ao livro de poemas Micropaisagem, o autor
confessa que “neste livro o tema da memória surge várias
vezes
”, ao que nós acrescentaríamos que explícita ou
implicitamente ela está lá sempre, presença obsessiva em tudo
quanto escreve, espécie de leit-motiv que o persegue. Como
ele próprio afirma num tom indisfarçadamente pessimista: “sim,
recuso o presente, o futuro. Mas o passado, custa mais
”.



E é este seu “passado” que constantemente vem à tona, como se
de um náufrago que teima em adiar a morte se tratasse…



E a memória salta, escaldante:



“Este junho que lembra um forno de cal na gândara, ao meio dia”
(Aprendiz…, p.64).



“O verão ardia com um forno de cal” (Casa…,
p.10).



Ou, mais serena e esclarecida:



“Na gândara há aldeolas ermas, esquecidas entre pinhais, no fim
do mundo.” (Casa…, p.1).



  1. A GÂNDARA
    “RECONCTRUÍDA”




Tradicional e justamente associado à Gândara – já em 1947
Vitorino Nemésio admitia que a Gândara tinha “o seu cronista
Carlos de Oliveira, o poeta de Casa na Duna e uma Abelha na
Chuva
” (Viagem ao pé da porta, p.24) e alguns
anos mais tarde seria Alexandre Pinheiro Torres a Reconhecer tal
evidência ao designar por “tetralogia da gândara
o conjunto dos quatros primeiros romances de Carlos de Oliveira,
situação que apenas foi alterada com a publicação de Finisterra
pois passaram a ser cinco e não quatro os romances de inspiração
gandaresa.



Servindo-nos da expressão de Vital Moreira (em excelente artigo
publicado na revista Vértice, nº450/1, em 1982, uma
digna homenagem póstuma a Carlos de Oliveira), “a recriação
literária da Gândara (…) não tem nada a ver com preocupações
de reprodução integral da realidade concreta” – o que se
verifica é justamente a depuração dos seus “aspectos essenciais”
de forma a conseguir-se uma caracterização capaz de generalizar a
sua compreensão e recepção. Voltando a Moreira: “a quantidade
descritiva cede lugar à profundidade caracterizadora. Em vez de uma
prespectiva regionalista, um enfoque universalizante.”




    1. A CASA





A casa é o elemento-chave da paisagem povoada. Tal como o povoamento
da Gândara é recente, breve à sua maneira, também a casa
gandaresa acompanha esta imagem efémera das coisas feitas à medida
de uma vida. E em O Aprendiz…, p.207, o autor
explicita aquela que para si é “uma palavra essencial”:
brevidade”. Vai ainda mais longe e compara a sua
literatura, explica os seus sentimentos, com o recurso às “coisas”
que melhor conhece:



“Casas construídas com adobos que duram sensivelmente o que dura
uma vida humana. Pinhais que os camponeses plantam na infância para
derrubar pouco antes de morrer. A própria terra é passageira: dunas
modeladas, desfeitas pelo vento”.



A precaridade das casas é notavelmente descrita pelo poeta num dos
seus textos mais bonitos, “A Fuga”, escrito em 1961-1967 e
inserido em O Aprendiz de Feiticeiro. Reflexões
suscitadas pela provável visita à casa da infância, numa certa
manhã de Outubro, que ele lembra através de duas palavras
significativas: “desolação, desilusão”. E compreendemos
porquê quando lemos o que escreveu:



“As casas apodrecem. Vejo-as agora bastante bem (nenhum vestígio
de nevoeiro). (…) O contacto do ar carregado de sal envernizou as
coisas mas o resíduo salino está a corroê-las por baixo do verniz:
entranhou-se na casca das árvores, nos adobos, na fenda das telhas.
Cintilação suave, espécie de morte. O fungo das paredes absorve os
elementos marinhos, serve-se deles para minar o saibro, a pedra, a
cal, com mais facilidade. No seu falso esplendor as casas apodrecem.
Quando torna o verão fumegam. É o resto da humidade que se retira
(para voltar mais tarde: chuva, nevoeiro) deixando as construções
farelentas. Cai poeira das casas como caruncho das pranchas de
madeira doente. Apodrecem.”



Como que a reforçar esta “fixação obsessiva pela casa em
declínio”, nas palavras de Vítor Viçoso (in Vértice,
nº38, II série, pp. 9-10), o escritor insiste em “repetir o
essencial” ao escrever em “Nota final” de Finisterra:
lembra-se ainda (o autor) doutra sua casa destruída:
obsessões pessoais e sociais idênticas?
” Mas remata com o
juízo lúcido de quem está seguro que “grave seria, com
certeza, não as ter aprofundado
(as obsessões) um pouco”.


    1. A PAISAGEM





A casa gandaresa reflecte os materiais que o homem pôde recolher
como dádiva da natureza: o saibro que dá o adobo, a pedra
transformada em cal, as árvores que da inicial postura vertical
acabam por morrer deitadas, feitas traves, barrotes, ripas, calhas
para assentar o barro canelado e cozido que impermeabiliza a
cobertura da habitação. Da abundancia destes elementos se faz a
paisagem da Gândara e se povoa também a obra literária de Carlos
de Oliveira. A paisagem física é preenchida por “areia”,
“chuvas”, “terra”, “sol”, “pinheiros”, “campos”,
“fósseis”, “calcário”, “grutas calcáreas”, “lagoas”,
“água”, “vergas”, “juncos”, “canaviais”, “rãs”,
“moitas de espinheiros”, “chuva”, “trovoada”,
“barrancos”, “florestas”, “poceirões”, “pântanos”,
“charcos”, etc.; a paisagem humana compõe-se de “aldeolas
ermas”, “casebres muito baixos de adobo”, “fornos de cal”,
“leiras de pinhal, vinha, milho”, “vedações de cana”, etc.:



“Na gândara há aldeolas ermas, esquecidas entre pinhais, no fim
do mundo. (…) Ao fundo dum desses sítios, há uma pequena lagoa
que o calor de julho seca. Quando a água se escoa, a concha gretada
está coberta de bunho. As mulheres ceifam-no, estendem-no ao sol, e
entrançam esteiras (…). O charco espalha sezões nos casebres à
borda da água (…). O povoado cresce sobre a duna que há perto de
duzentos anos os pinhais começaram a fixar.” (Casa na Duna,
pp. 1-3).



“Ermos. Léguas de pinhais, quietos como velhas florestas. (…)
Campos, nesgas de areal e mato, poceirões. Mais perto, a aldeia
deserta. As pedras vivas de calor. Mais perto ainda o pomar (…)”
(Pequenos Burgueses, p. 145).



“Distingue, pelas abertas dos pinheiros, milhos amarelecidos,
vinhas, batatais, leiras de abóbora e couve, uma ou outra árvore de
fruto”. (idem, p. 185).



“A primeira zona de areia (…) ocupa o terço inferior da aridez
que a janela enquadra. Segue-se uma faixa estreita de gramíneas: a
evaporação da lagoa (juncos densamente roxos) submerge-as num tom
mais carregado que o da própria água. (…) Na outra margem, a
linha das dunas reflecte o movimento dessa ondulação (…) e serve
de limite ao terço intermédio da paisagem.” (Finisterra,
pp. 7-8).



“Fogo de sol a sol, relampejando nas enxadas, que remédio. Na
areia germina pouco pão e as regas, além da chuva, precisam de
suaor.” (Finisterra, p.24).


    1. OS LUGARES





A localização espacial das intrigas dos romances de Carlos de
Oliveira é mais um elemento de significativo peso que vem reforçar
a sua filiação gandaresa. Já não é apenas o recurso habitual ao
termo “gândara” a lembrar essa ligação, há também todo um
vasto conjunto de topónimos que ou são imediatamente localizáveis
no mapa da Gândara ou dela são tão vizinhos que sempre impuseram
entre si relações estreitas. Sem querermos ser exaustivos na
exposição, passemos em revista os lugares e logo concluiremos que
nos são tão familiares: S. Caetano (Casa na Duna, Alcateia,
Pequenos Burgueses, Uma Abelha na Chuva),
Corgos (Casa na Duna, Alcateia, Pequenos
Burgueses
), Montouro (Uma Abelha na Chuva,
Pequenos Burgueses), Fonterrada ( Alcateia,
Pequenos Burgueses, Uma Abelha na Chuva),
Moirões (Pequenos Burgueses), Corrocovo (Casa na
Duna
, também referido em Uma Abelha na Chuva a
propósito de um Santo António que aí existiria) e ainda Albocaz,
Poceirão, Praia do Areão, Campanas, Covão, Várzea, Ançã, Pena,
Pampilhosa. Mas observemos agora em pormenor as referências que
acompanham alguns destes lugares: “Corgos” (como sabem é o nome
de uma povoação verdadeira que existe colada entre o Sobreirinho e
a Chorosa, na Freguesia de Febres) é nos romances de Carlos de
Oliveira (Casa na Duna, Alcateia,
Pequenos Burgueses) o nome literário da vila sede de
concelho a que pertencem quase todos os lugares atrás mencionados. A
sua descrição permite contudo identificá-la com a Cantanhede que
conhecemos )ou, mais rigorosamente, com a dos anos 40):



“Setecentos, oitocentos fogos dispostos em ruas mais ou menos
radiais. No centro, em redor do parque, ficam os Paços do Concelho,
a Matriz duas ou três casas apalaçadas. A possibilidade de entrever
o conjunto da povoação, muito plana, é subir à torre da Matriz ou
às colinas” (Pequenos Burgueses, p. 83);



“os fornos de cal (…) à beira do caminho de ferro” (Alcateia,
p. 75).



“Corrocovo”, a aldeia onde decorre a acção de Casa na
Duna
, é a versão literária provável de um lugar do
concelho de Cantanhede chamado Corgo Covo (v. nota 15 do trabalho
“Freguesia de Febres”, do Dr. Carlos Cruz, publicado nesta
revista) e que surge grafado no Processo de Separação
da Freguesia de Febres como “Corro Covo”), documento que teria
servido hipoteticamente de fonte a Carlos de Oliveira. Em relação a
alguns destes lugares, importa acrescentar que eles vêm associados a
referências curiosas, uns, ou já conhecidas, decalcadas da
realidade, outros: temos, assim, a “telha da Pampilhosa” (Casa
na Duna
), as “pedreiras da Pena” (Casa…),
o “moinho do Perboi” (Casa…), os “Franceses que
(no tempo das invasões) deixaram uma milícia nos Campanas”
(Casa…), a “bruxa do Albocaz” (Casa…),
o “bruxo dos Moirões” (Pequenos Burgueses).



O autor escolheu, pois, estabelecer deliberadamente uma relação
imediata e explícita da sua obra com a região onde passou a
infância e juventude. A opção por nomes de aldeias que de facto
existem, embora inventando localizações e distâncias entre si, é
uma prova cabal dessa sua intenção, reforçada até pela
circunstância de muitos se repetirem de romance para romance.
Constatado isto, perguntarão alguns: porque não escolheu Carlos de
Oliveira o nome de Febres para uma das aldeias dos seus romances? A
resposta não é fácil, sobretudo porque estando o autor já
afastado do nosso convívio não poderá esclarecer a dúvida de viva
voz. Mas permitam-me, ainda assim, adiantar aquela que me parece ser
a justificação plausível para tal opção: não foi intenção de
Carlos de Oliveira fazer o panegírico, o elogio barato, a propaganda
descarada de uma região – essa não é tarefa para a Literatura e
o autor não seria hoje recordado por esse país fora, estudado por
especialistas nacionais e estrangeiros, traduzido já numa meia dúzia
de línguas. Homem dotado de fina sensibilidade e empenhada
consciência social, recusou sempre que a sua acção de escritor se
confundisse com um esmerado panfletarismo. Não lho perdoaram aqueles
para quem Arte e denúncia são de todo incompatíveis (a polémica
dos que o acusam de se afastar do Neo-Realismo…).



Para Oliveira, o universo da Gândara é no fundo o espelho de todas
as injustiças vividas pelo Mundo, os seus camponeses pobres e mal
alimentados são testemunhos vivos e incómodos a clamar por urgentes
transformações sociais. Mas leiamos Baptista-Bastos (in Jornal
de Letras
, 02/07/91): “No fundo a gândara, local
privilegiado da sua ficção (em poesia ou em prosa) era a expressão
de um universo muito particular, no qual se agitavam todos os grandes
temas eternos e no qual agiam homens e mulheres confinados, anulados,
proscritos num pessoal (portanto universal) território de angústia.
A infância da morte, nos romances de Carlos de Oliveira, não
constitui um estratagema. É, antes de tudo, uma interpelação ao
absurdo da existência”.



Por tudo isto, pela sua proverbial discrição pelo pudor, pela
reserva em relação a pompas e circunstâncias (é conhecida a sua
recusa de cargos públicos de importância, a sua aversão a
entrevistas…) compreende-se que não tenha escolhido “Febres”
para baptizar uma das “suas” aldeias. O que não pôde foi apagar
da “memória” o que viveu e aprendeu na ladeia da infância,
“tatuado” como ficou por esta realidade. O que podemos
testemunhar nesta descrição da movimentada praça da Fonterrada de
Pequenos Burgueses (p. 26), ao Domingo:



“Na praça de terra batida, o domingo, as crianças, a algazarra
das tendas. Camponesas vestidas de negro fazem compras; à porta da
taberna, homens despem o casaco para o chinquilho; carros de bois,
mal oleados, chiam. O som do sino harmoniza por momentos a balbúrdia,
a manhã.”



  1. SITUAÇÕES
    DE RURALIDADE GANDARESA



    1. A POBREZA





Mas as recordações, ou o recurso à “memória”, não reflectem
apenas esses nacos cor de rosa ou de tonalidade exótica que hoje
apreciamos, decorridos que são 50 anos (não vamos esquecer que no
próximo ano se comemora o cinquentenário da sua estreia literária
(1942), com Turismo, o seu primeiro livro) sobre a
época em que de uma forma geral decorre a acção dos seus primeiros
quatro romances. É bom que se diga (a memória dos homens é por
vezes curta!) que a Gândara daquela época é uma terra de
“desolação” e de “fome”:



“Também nos casebres a vida se tornara mais rude. Dantes, havia
alguma carne para cozinhar. De quando em quando. Um ou outro porco
era cevado e as salgadeiras de Corrocovo suavizavam o inverno. Agora
os camponeses levavam a criação às feiras. Tiravam o pão à boca,
enchiam as gamelas dos animais. O gado gordo rendia o dobro e
vendiam-no aos talhantes. O cotim, os tamancos, a chita, não caíam
do céu. Era preciso pagá-los. E comiam a sardinha assada nas
brasas, a broa, as azeitonas, uma posta de bacalhau nos dias santos
para a família inteira. Nos meses frios, nem isso tinham. Só o
vinho abundava. Os homens esperavam o domingo, metiam-se na loja (…),
e ao serão as discussões nasciam nos casebres. Jornaleiros bêbedos
espancavam as mulheres, a filharada.” (Casa na Duna,
pp. 96-97).



Reflexo dum “tempo em que os camponeses trocavam a terra a
canecas de vinho
” (Casa…, p. 7), eram agora os
ricos proprietários que ditavam as regras da sobrevivência num
mundo atrasado e fechado, prestes a sucumbir face às ainda tímidas
investidas da industrialização possibilitada pela abertura de vias
de comunicação:



“A estrada continuou a rolar pela gândara. De lugarejo a lugarejo,
as distâncias ficavam mais curtas. A exploração ia começar a
fundo. Os armazéns, o cemitério de Corgos e, através deles, os
grandes negociantes e industriais das cidades, lançavam pela estrada
nova as furgonetas, os camiões de carga. Escapes ruidosos assustando
pássaros e gado. (…) Às aldeolas ermas, onde a telha de Corrocovo
se vendia, chegava a concorrência das grandes indústrias. As
fábricas da Pampilhosa descarregavam a telha, nos povoados obscuros,
mais barata que a do forno da quinta.” (Casa…, pp.
154-155).



As perspectivas de uma miséria ainda maior ditadas por uma
industrialização rápida pairavam ameaçadoras e, caso se
concretizassem,



“as levas emigrantes e dos ganhões engrossariam e o povo das
terras areentas debandaria em massa. Ao fim da caminhada, a gente da
gândara encontraria os esteiros do Tejo, os valados lodosos, as
febres do arroz. Ou o chão alheio de um novo continente.” (Casa…,
p. 44).



Mas os que partiam na ilusão de vida desafogada, ou apenas em busca
da jorna que não tinham, regressavam desenganados e doentes, como
bem ilustram estas palavras do Dr. Seabra dirigidas a Mariano Paulo,
o poderoso proprietário de Corrocovo em Casa na Duna
(pp. 94-95):



“- Você recorda-se duma conversa que tivemos aqui há tempos? Os
homens que voltam a Corrocovo empaludados, que gastam numa semana a
féria amealhada em três meses nos charcos do arroz e acabam por
ficar a curtir sezões o resto da vida? (…) esses homens fazem as
fortunas dos grandes lavradores ribatejanos e vêm acabar a Corrocovo
sem um naco de broa, sem enxerga, sem a porcaria dumas drogas.”




    1. A LINGUAGEM
      E O PENSAMENTO POPULARES





O horizonte ficcional de Carlos de Oliveira desenha-se numa linha
caracteristicamente gandaresa e o tom predominante de toda a “vista”
é seguramente camponês.



As “aldeolas ermas” coexistem à sombra da poderosa vila onde
está sediada a pequena e a média burguesia (o empregado de
escritório, os lojistas, o dono do armazém, o médico). Mas é nas
primeiras que habita a gente do campo (camponeses pobres,
jornaleiros, alguns senhores da terra, vagabundos, salteadores). É
neste mundo de “lagoas, pântanos, desolação, calcário,
areia
” que convivem estas forças de interesses tão
contraditórios, é neste universo, essencialmente rural e em
desagregação perante uma industrialização mais forte, que
Oliveira constrói o cenário do seu edifício ficcional.



O homem que habita estas paragens, o “camponês torvo” da
Gândara, carrega consigo “marcas” que o identificam, “tatuado”
tal como o autor por uma realidade dura que a ninguém deixa
indiferente. É a linguagem, por um lado, que transporta a “impressão
digital” das suas origens, da sua cultura, de toda a trama de
relações que a vida lhe impingiu. Aparecem palavras e expressões
que disso são exemplos eloquentes: “poça” (interjeição que
exprime espanto, admiração), “chiça”, “picheira” (a jarra
do vinho), “carreiro” (para designar caminho de peões por entre
o mato), “agulhas” (caruma dos pinheiros), “encepar” ( no
sentido de tropeçar), “campar” ( no sentido de sair-se bem) e
ainda “dar cabo do canastro”, “ baralhar alhos com bugalhos”,
“um bico de obra”, “estar metido numa camisa de onze vars, num
inferno de trinta caldeirões”, “juntar a sede à vontade de
beber”, (fazer qualquer coisa) “com unhas e dentes”, “morra
quem se nega”, “no poupar é que vai o ganho”, “põe-te a
andar ou levas das que os cães enjeitam”, “ser fraca rolha”,
“andar a dormir na forma” , (fazer qualquer coisa) “á falsa
fé”, “rachar o canastro” (a alguém), “perdido por cem,
perdido por mil”, “ir a butes”, “não perder pela demora”,
“ser torto como um arrocho”, “ser sol de pouca dura”, “ser
uma sangria desatada”, “ao deus dará”, “sem tugir nem
mugir”, “apanhar (alguém) com a boca na botija”, (ser) “um
alma de Deus”, (ser) “um cabeça de unto”, (ser) “um doido
varrido”, (ser) “um estoira-vergas”, etc. Ou ainda outras,
estas de sabor proverbial, mas que documentam na perfeição todo um
modus vivendi de raiz confessadamente popular e camponesa:
“sopa sem vinho é domingo sem missa”, “grande nau grande
tormenta”, “fora-se o bicho, fora-se a peçonha”, “até ao
lavar dos cestos é vindima”, “castigo a um é exemplo a cem”,
“o choco faz o pinto, a ocasião faz o ladrão”, “cá se fazem,
cá se pagam”, “quando Deus queria do norte chovia”, “noiva
serôdia, nem miolo nem côdea”, “boda e mortalha no céu se
talha”, “o homem põe, Deus dispõe”, “não há sábado sem
sol nem domingo sem missa”, “morte sonhada, vida dobrada”, etc.



De uma forma muito genérica, todas estas expressões e provérbios
contribuem para carregar os contornos já tristes deste camponês da
Gândara que, à míngua de praticamente todo o conforto material,
recorre ao divino e ao sobrenatural na ânsia universal e legítima
de escapar ao inferno que sabe que a vida é. Não surpreende
portanto que surjam com destaque na obra de Carlos de Oliveira
figuras como o “Lobisomem” (Casa na Duna), “o
bruxo dos Moirões” (Pequenos Burgueses), “a bruxa
do Albocaz” (Casa na Duna, p. 109), “a doida da
Fonterrada” (Alcateia, p. 75) “a quadrilha de João
Santeiro” (Alcateia e Pequenos Burgueses).


CRONOLOGIA
RESUMIDA


1921 – Nasce em
Belém do Pará (Brasil), a 10 de Agosto, filho de pais portugueses.


1923
– Vem para Portugal com os pais que se instalam, primeiro em
Camarneira, e depois em Febres, onde o pai vai exercer medicina como
médico municipal. Aqui Carlos de Oliveira frequenta a Escola
Primária.


1931
– Frequenta durante dois anos o ensino secundário em Cantanhede.


1933
– Ingressa no Liceu D. João III, em Coimbra, cidade em que
permanecerá até 1948 e onde fará a sua formação académica e
literária.


1937
– Publica, de parceria com Artur Varela e Fernando Namora, o livro
Cabeças de Barro.


1942
– Publica o seu primeiro livro, Turismo, um conjunto
de poemas ilustrados por Fernando Namora.


1943
– Publica o seu primeiro romance, Casa na Duna.


1944
– Sai Alcateia, um romance que será apreendido pela
polícia de Salazar.


1945
– Publica um novo livro de poemas, Mãe Pobre.


1947
– Conclui a Licenciatura em Histórico-Filosóficas.


1948
– Muda-se para Lisboa, embora continue a deslocar-se a Coimbra com
frequência. Sai o romance Pequenos Burgueses.


1949
– Casa com Ângela, uma jovem madeirense que conhecera na
universidade e que será a sua companheira para o resto da vida.


1950
– Publicação do livro de poemas Terra de Harmonia.


1953
– Publicação de Uma Abelha na Chuva.


1960
– Sai o livro de poemas Cantata.


1968
– Publica dois novos livros de poemas, Sobre o Lado Esquerdo
e Micropaisagem. Fernando Lopes inicia a realização
de um filme baseado em Uma Abelha na Chuva.


1971
– Publicação de O Aprendiz de Feiticeiro, livro de
crónicas, e de Entre Duas Memórias, novo livro de
poemas.


1976
– Reúne a sua poesia em Trabalho Poético (2
volumes), abrangendo os livros anteriores com a revisão de alguns
poemas.


1977
– Publicação de Pastoral, um livro de poemas já
integrado em Trabalho Poético.


1978
– Publicação de Finisterra, último romance.


1979
– É-lhe atribuído o prémio “Cidade de Lisboa” pelo livro
Finisterra.


1981
– Morre, a 1 de Julho, com 59 anos, na sua casa de Lisboa.




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