Junta de Freguesia de Vila de Febres

História


Implantada em posição central na metade norte do território concelhio, esta é mais uma freguesia que resultou de desmembramento a partir do extenso termo que outrora assumiria a vizinha Covões, a qual lhe vai traçando os limites setentrionais. Nas restantes confrontações, esta freguesia de Febres - de razoável extensão territorial, orçada em 2.243 hectares - vê estenderem-se as congéneres Vilamar (a poente),

S. Caetano (a sudoeste), Cantanhede (a sul), Pocariça (a sudeste) e finalmente Camarneira (a nascente). Entestará ainda, em pequena porção limítrofe do flanco noroeste, com o vizinho termo municipal de Vagos.

Situada numa zona de planura, com declive suave e contínuo do interior para a linha de costa, a cotas que variam entre os 50 e os 90 metros, esta parcela territorial surgirá conformada geologicamente por solos arenosos, originários de formações dunares e eólicas de consolidação relativamente recente.

A natureza pantanosa e insalubre deste trecho de paisagem ganderesa, a abarcar diversas pequenas lagoas ainda subsistentes, ter-lhe-á valido a designação toponímica, relativa às repercussões das febres ou "sezões" do paludismo (malária), contra as quais se invocaria um culto a Nossa Senhora, por essa razão referenciada como "das Febres". Antes da criação desta freguesia, chamar-se-ia Boeiro à povoação principal, onde um templete da sobredita invocação acabaria por fixar-se como motivo de culto paroquial. Também esse topónimo "Boeiro" se revela assaz eloquente da insalubridade manifestada outrora por esta parcela de território. Na zona meridional de Febres ficam as chamadas Lagoas Dianteiras, a testemunhar essa realidade geográfica, de decisivo papel na evolução histórica da freguesia.

Para além da povoação principal de Febres, integram o seu termo os lugares de Arrancada, Balsas, Barracão, Cabeços, Chorosa, Fontinha, Lagoas, Pedreira, Serredade, Sanguinheira e outros de menor expressão como por exemplo Sobreirinho, Corgos, Carrizes e Forno Branco. Densamente povoado, este território registará na actualidade um cômputo geral próximo dos três milhares e meio de residentes. Nesta área da actual freguesia de Febres já a presença humana se faria notar pelos alvores da civilização, conforme atestará o testemunho material de um machado de pedra polida, ao que cremos descoberto e noticiado por Carlos Cruz, no âmbito das suas prospecções arqueológicas em território da região. O artefacto, de anfibolite, medirá cerca de 26 cm. de comprimento, apresentando um "gume pronunciado", com 6 cm de extensão. Este achado, de tradição neolítica, terá ocorrido junto à Lagoa do Frade, a 6 km. para leste de Mira, "em sítio pantanoso".

A freguesia de Febres foi criada em 1791, conforme se deu testemunho escrito em um Auto de Desmembração lavrado na época, e entretanto publicado em um precioso estudo monográfico comemorativo do segundo centenário da sua existência, com textos de vários autores. Atente-se, por exemplo, neste breve excerto, relativo às origens paroquiais e assinado por Carlos Simões Cruz:

"O primitivo lugar do Boeiro, cuja primeira referenda que compulsámos data de 1683, estendia-se para nascente do actual centro e tratava-se de um povoado de relativa importância, embora fosse mais pequeno que, por exemplo, Balsas, Corticeiro de Baixo, Camarneira ou Covões. O povoamento da zona poente ter-se-á efectuado mais tarde, já que em 1721, pelas informações que o cura de Covões, José Coelho, fornece ao seu prelado a solicitação da Academia Real da História, ficamos a saber não existir ainda nenhuma capela ou ermida a N. Sra. das Febres, o mesmo não acontecendo em 1758, nas Memórias Paroquiais, onde são referenciadas onze capelas pertencentes a freguesia dos Covões de então, aí se afirmando que nove delas se encontram localizadas dentro dos respectivos lugares e "separadas só Santo Amaro nos Picottos e N. Sra. das Febres no Boeiro. Será, portanto, só a partir desta altura que, agora sim, pela força aglutinadora da Igreja, se irá fazer o povoamento do actual centro."

Alguns lugares que integram a actual freguesia surgem já arrolados em documentação baixo medieval, tal como nos casos de Balsas e Arrancadas, mencionados respectivamente em registos escritos datados de 14 de Dezembro de 1271 e 25 de Novembro de 1311, respectivamente.

Em redor da praça principal de Febres, erguiam-se outrora alguns importantes exemplares de solarenga arquitectura, edifícios de certa imponência cuja traça evidenciaria feições estruturais de épocas setecentista e oitocentista.

O próprio templo paroquial primitivo, de harmoniosa fábrica ao gosto barroco, possivelmente de finais do século XVIII ou de inícios do seguinte, apresentar-se-ia já algo arruinado por volta de 1950, acabando por ser apeado e em seu lugar erguida, a pouco distância, a actual Paroquial. É esta uma edificação de ampla volumetria, dotada de uma torre sineira adossada a um dos flancos e ostentando, na respectiva frontaria, uma tripla sucessão de vãos em arco redondo, os quais abrem para uma pequena área vestibular onde, por sua vez, se rasga a porta principal da templo.

Para além deste templo principal da freguesia, deve ainda referir-se a existência de uma pequena Capela da Fontinha.

O movimento associativo, de notável expressão local, assinalar-se-á pela criação de (pelo menos) oito diferentes instituições, de índole diversificada, a saber: a Associação de Classe dos Ourives, Feirantes e Comerciantes de Febres (fundada em 1925 e extinta em 1949), o Febres Sport Club (com origens na década de 30), a Juventude Masculina de Febres (anos 20), a Juventude Unida de Febres (meados da década de 60), a Juventude Académica de Febres (idem), o grupo musical "Ó Ai Ó Linda" (1983), a rádio local "Auri-Negra" (criada em 1985 e promotora, em 1990, do Monumento ao Ourives Ambulante, que adiante se descreverá) e, finalmente, o Rancho Folclórico "Rosas de Maio" (1990). 

Um interessante monumento escultórico, em bronze e de tamanho natural, erecto em praça pública da povoação de Febres, representará um dos antigos ourives ambulantes, com sua bicicleta a pedal, numa homenagem a estes profissionais, outrora conhecidos por "malas verdes".


"Muitos dos seus habitantes (bem como de outras povoações vizinhas) fizeram da venda de artigos de ourivesaria o seu modo de vida. Transportando no suporte traseiro da bicicleta o baú de folha-de-flandres pintado de verde, levavam até grandes distâncias cordões, brincos, anéis, relógios e mil artigos de ouro. Quando chegava um mala verde ao largo da aldeia, as pessoas juntavam-se e as que podiam aplicavam as suas poupanças. Estes pequenos comerciantes ambulantes foram de certo modo os sucessores dos almocreves de outros tempos. A mula e ao burro sucede a bicicleta que nem sempre chega a toda a parte, pois os caminhos da serra têm de ser calcorreados a pé. Se havia feira ou mercado, ele lá estava, com sua pequena tenda. Hoje este comércio errante está praticamente extinto, mas em Febres eVilamar continua ainda a ter certa importância, como negócio por grosso e de importação."
(Nelson Correia Borges)

A esta freguesia de Febres se liga, por razões sentimentais e porque aqui residiu durante parte da infância, o destacado vulto da literatura nacional, poeta e romancista Carlos de Oliveira. Entre os valores patrimoniais de índole natural, destaca-se a chamada Lagoa dos Coadiçais.


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